O sistema internacional, acostumado a crises recorrentes no Oriente Médio, testemunha um momento inédito: um cessar-fogo de 14 dias entre os Estados Unidos e o Irã, mediado com precisão pelo Paquistão. Este Acordo de Islamabad não representa apenas uma pausa nos conflitos, mas ressalta a transformação radical da República Islâmica. O Irã atual deixou de ser governado por clérigos em busca do martírio e passou a ser dominado por generais focados na sobrevivência. O que vemos é uma verdadeira realpolitik em ação. Enquanto alguns analistas esperavam uma ‘Primavera Persa’, a realidade se concretizou com a transformação do regime em uma estrutura puramente militar. O ‘Estado profundo’ iraniano utilizou o caos nas ruas para eliminar o clero ineficiente e consolidar seu poder sob uma forte estrutura militar. A morte de Ali Khamenei foi o catalisador final para essa mudança, resultando na ascensão do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como a verdadeira autoridade do Estado. Apesar de Mojtaba Khamenei manter uma posição nominal, ele governa sob a influência de líderes como Mohammad Baqir Qalibaf, presidente do Parlamento. Entramos na era da ‘Terceira República Islâmica’, onde a ideologia tornou-se um mero acessório para a manutenção dos privilégios econômicos de generais que controlam um vasto conglomerado militar-industrial. Esse pragmatismo permitiu o cessar-fogo quando a Guarda Revolucionária percebeu que a ameaça de Donald Trump de destruir a infraestrutura do país comprometeria sua própria base de controle. O regime parece agora adotar um modelo híbrido, que mistura elementos de uma ‘venezuelização’ com uma estabilidade autoritária semelhante ao ‘modelo egípcio’, focando na gestão de ativos estratégicos, como o Estreito de Ormuz. A mediação do Paquistão, sob a liderança de Shehbaz Sharif e do Marechal Asim Munir, foi crucial para evitar uma catástrofe, já que Islamabad prefere um Irã sob o controle de generais pragmáticos a um Estado falido que poderia exportar instabilidade. Contudo, esse otimismo é frágil, pois a interconexão entre os conflitos na Ucrânia e no Irã criou um complexo logístico difícil de gerenciar. O que se observa é a tentativa de transformar uma teocracia revolucionária em uma autocracia mercantilista. O futuro do Irã dependerá da capacidade de generais pragmáticos e de um presidente americano transacional em encontrar um acordo que promova a estabilidade, enquanto a população iraniana aguarda para ver se a ‘República das Fardas’ será mais duradoura ou apenas mais violenta que a ‘República dos Turbantes’.
Fonte: Oeste












